Ambev: salto histórico após 1º tri indica virada? Por que analistas seguem cautelosos

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Ambev: salto histórico após 1º tri indica virada? Por que analistas seguem cautelosos

Mesmo em meio a um cenário visto como bastante desafiador, a Ambev (ABEV3) registrou um balanço do primeiro trimestre de 2026 (1T26) que trouxe um desempenho histórico para as suas ações. Os papéis ABEV3 saltaram 15,3% apenas na última terça-feira (5) após divulgação do balanço, registrando a segunda maior alta de sua série histórica e alcançando o maior fechamento desde abril de 2018. Muito impulsionada pela alta da última terça, os papéis avançam mais de 23% no aucmulado do ano.

O movimento refletiu surpresa positiva com a performance operacional, especialmente no Brasil, uma vez que a divisão de cervejas doméstica entregou um desempenho acima do esperado, superando as expectativas do mercado tanto em volumes quanto em preços. Em um cenário em que se esperava queda, os volumes cresceram 1,2% na comparação anual, enquanto o preço médio avançou 8%, apoiado por um mix mais favorável. Esse resultado mais do que compensou uma leve pressão de custos e levou o resultado operacional (Ebitda) ajustado do segmento a R$ 3,85 bilhões, cerca de 11% acima das estimativas.

No geral, a companhia divulgou lucro líquido de R$ 3,89 bilhões no primeiro trimestre, avanço de 2,1% sobre um ano antes e distribuição de juros sobre capital próprio de cerca de R$700 milhões, a serem pagos até dezembro.

Carlos Lisboa, presidente-executivo da companhia, manteve tom positivo em teleconferência e disse que a combinação de uma série de feriados prolongados com a realização da Copa do Mundo na América do Norte neste ano devem ajudar as cervejarias a manterem recuperação.

Lisboa afirmou ainda que a companhia espera um arrefecimento de custos a partir do segundo trimestre e que está confiante sobre o cumprimento das estimativas de custo para as operações de cerveja no Brasil ao longo deste ano. A Ambev espera um crescimento do custo dos produtos vendidos por hectolitro da operação de cerveja no Brasil em 2026 entre 4,5% e 7,5%, excluindo depreciação e amortização e o marketplace do grupo.

“A performance das ações no dia indicou que: (i) o mercado está reavaliando a performance do business de cervejas no Brasil, que — depois de muito tempo — parece ter voltado a ganhar tração; e (ii) o fechamento de posições vendidas no papel, refletindo no ponto anterior”, conforme apontou Bruno Benassi, analista da Monte Bravo Corretora.

Contudo, isso é suficiente para representar uma virada nas ações da Ambev?

De acordo com grande parte dos analistas, não. Apesar de revisões para cima nos números da companhia e sinais de melhores dias para a maior cervejaria da América Latina, analistas seguem cautelosos com os papéis e mantêm recomendação ou neutra ou de venda para os ativos. Segundo compilação da LSEG com casas que acompanham ABEV3, de 14 recomendações, 8 são de manutenção, 4 de venda e 2 apenas de compra – isso ainda que o preço-alvo médio projetado tenha subido de R$ 14,78 em 6 de abril para R$ 15,32 em 6 de maio, mas ainda uma queda de 9% em relação aos patamares atuais.

“Este foi um trimestre que entregou praticamente tudo o que os investidores esperavam”, ressaltou o Bradesco BBI em análise, apontando que houve crescimento de volume no segmento de cerveja mesmo com uma base de comparação difícil, enquanto os preços foram muito mais fortes do que o esperado. Já o controle de despesas gerais e administrativas permaneceu sólido e a alavancagem operacional se manteve, acompanhando a aceleração do crescimento da receita.

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“O resultado reforça a ideia de que a Ambev está começando o ano em uma posição muito mais sólida, ganhando participação de mercado e aproveitando o impulso da reconstrução do portfólio de marcas, que vem sendo planejada há anos. A questão agora é o que mudará a partir de agora”, avalia. A companhia tem ganhado participação de mercado enquanto aumenta os preços, superando o mercado premium e agora também melhorando seu desempenho relativo no mercado mainstream (populares).

Para a Monte Bravo, depois de muito tempo, a companhia parece ter readquirido algum controle sobre o mercado, com capacidade de ganhar participação de mercado e manter repasse de preços. A estratégia de premiumização de seus produtos é a principal responsável por essa melhora.

Os analistas do BBI elevaram a sua estimativa de lucro líquido para 2026 em 3%, para R$ 15,5 bilhões. Isso implica um múltiplo de P/L (preço sobre lucro) de 16,8 vezes para 2026, um prêmio de 25% em relação às cervejarias globais. O banco reconhece o posicionamento competitivo mais forte, mas aponta que o valuation já parece incorporar um crescimento mais persistente do que considera confortável, enquanto as pressões de custos em 2027, a diminuição dos ventos favoráveis ​​do calendário e um cenário de consumo fraco ainda limitam a visibilidade.

Assim, o banco o preço-alvo de R$ 14 para 15 por ação, mas mantendo a recomendação neutra.

Esta foi a tônica de outros bancões e casas de análise sobre o balanço. Na avaliação do JPMorgan, o trimestre foi um verdadeiro “game changer” em termos de confiança, embora ainda não suficiente para justificar uma reclassificação estrutural da ação.

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O banco manteve recomendação neutra, ainda que elevando o preço-alvo de R$ 16,50 para R$ 17, e destacou a forte recuperação da cerveja no Brasil, com ganho superior a 1 ponto percentual de participação, o maior em mais de cinco anos, além da resiliência do portfólio premium e do desempenho melhor que o esperado no segmento central. Segundo o JPMorgan, o 1T26 “estabelece o palco para uma inflexão relevante de lucro”, apoiada por volumes mais fortes, mix mais favorável e custos mais benignos, mas ainda há cautela quanto à visibilidade de crescimento de longo prazo e à dinâmica estrutural da categoria.

O valuation também é destacado pelo banco americano, que aponta que a Ambev continua negociando a múltiplos elevados em relação a pares globais, o que limita o upside (potencial de alta) estrutural. Para o JPMorgan, o fluxo de caixa livre em dígitos altos e a melhora da previsibilidade de resultados ajudam a sustentar o papel, mas ainda não eliminam os riscos ligados à competição e ao crescimento da indústria.

O Goldman Sachs reconhece que o 1T26 marcou uma inflexão operacional importante, com surpresa positiva em volumes, receita por hectolitro e margens no Brasil, refletindo iniciativas mais eficazes de gerência de receitas e melhor execução comercial. Ainda assim, pondera que parte do desempenho se beneficia de bases de comparação mais fracas e de fatores cíclicos, como custos mais favoráveis, o que exige confirmação ao longo dos próximos trimestres antes de justificar uma visão mais construtiva sobre valuation.

A recomendação do Goldman para os ativos ABEV3 é de venda, ainda que elevando ligeiramente o preço-alvo dos ativos, passando de R$ 12,20 para R$ 12,90 por ação. “Mantemos nossa recomendação, embora observemos que um calendário favorável possa adiar a concretização desses riscos de queda para o final do ano”, avalia.

O Morgan Stanley tem uma recomendação equivalente para os papéis (underweight, ou exposição abaixo da média, equivalente à venda), com preço-alvo elevado de R$ 11 para R$ 12,50, aumentando a projeção para o Ebitda para 2026/2027 em 4%. Para o banco, a companhia está conseguindo defender participação de mercado e melhorar mix, sobretudo com crescimento acelerado nas marcas premium e super‑premium. No entanto, alerta que mercados fora do Brasil — como Canadá e América do Sul — ainda apresentam desafios estruturais, o que limita uma leitura mais otimista de longo prazo. Para o Morgan Stanley, o rali recente antecipa boa parte das melhorias de curto prazo e deixa a relação risco‑retorno mais equilibrada.

Na avaliação do Itaú BBA, o resultado ajudou a melhorar a percepção de curto prazo sobre os fundamentos da companhia, em especial no negócio de cerveja no Brasil. Ainda assim, manteve recomendação neutra, com preço‑alvo de R$ 17 – ainda que fatores como o posicionamento leve de investidores locais e o programa de recompra de ações possam sustentar o papel no curto prazo, mesmo com valuation pouco atraente.

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