Investigações privadas viram grande negócio para startup de tecnologia dos EUA

(Bloomberg) — Os investigadores do Departamento de Segurança Pública de Utah estavam ‘empacados’.
Eles analisavam um discreto autódromo de esportes a motor, cerca de 64 quilômetros ao sudoeste de Salt Lake City, e não conseguiam descobrir quem realmente era o dono.
Era uma pergunta importante: em 2023, Utah integrou o grupo de estados que proibiram adversários dos EUA — incluindo China, Irã, Coreia do Norte e Rússia — de comprar terras, e as pistas do parque ficavam à vista de um depósito de munição das Forças Armadas americanas.
Autoridades de Utah usaram registros corporativos e trabalhistas para saber mais sobre os donos do parque, uma empresa chamada Mitime Utah Investment LLC. Seus principais executivos tinham passaportes dos EUA, mas a trilha parava aí. As autoridades então recorreram à Strider Technologies, uma empresa sediada em Utah que passou quase uma década construindo uma versão, para o setor privado, do que as agências de inteligência fazem para estados nacionais.
Usando a plataforma da Strider — que avalia bilhões de documentos públicos, registros corporativos, dados de comércio exterior e arquivos em outros idiomas —, os investigadores rastrearam a estrutura societária da Mitime até entidades com contratos diretos e vínculos de pessoal com o governo e as Forças Armadas da China.
“Isso gerou uma quantidade avassaladora de informação”, disse Tanner Jensen, chefe do departamento.
A descoberta da Strider evidenciou a importância crescente das investigações privadas à medida que o governo Trump acelera sua estratégia para tornar os EUA menos dependentes economicamente da segunda maior economia do mundo. Os estados seguiram o mesmo caminho com seus próprios apertos em relação à China.
É um momento oportuno para a Strider, que lançou na quinta-feira seu primeiro recurso de IA “agente” (agentic AI). A empresa já tem pequenos contratos com a Força Aérea dos EUA, além de governos estaduais e a Otan, e uma lista crescente de ex-dirigentes de inteligência internacional em seus quadros.
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Esse choque entre capital global e segurança nacional também criou uma nova categoria de mercado: a comercialização da contraespionagem nas áreas de cadeia de suprimentos, roubo de propriedade intelectual e risco interno. E esse mercado vem surgindo em meio à crescente preocupação com o poder da tecnologia de IA e com os riscos ligados ao uso responsável de dados públicos e a violações de privacidade.
O negócio de rastrear atores estatais — mapear suas empresas de fachada, identificar seus agentes, seguir sua aquisição de tecnologia estrangeira — tradicionalmente foi conduzido exclusivamente por agências de inteligência governamentais, financiadas por contribuintes e operando sob mandatos sigilosos.
O que elas sabiam, em grande parte, não podiam compartilhar. O que não podiam compartilhar, o setor privado não podia usar. A Strider criou um negócio privado, de alta margem, em cima de algo que antes era uma função pública e colocou essa capacidade ao alcance de qualquer organização que possa pagar a assinatura. No caso da Força Aérea dos EUA, o valor passou de US$ 8 milhões.
O que a Strider construiu, segundo sua própria descrição, é “um gêmeo digital do mundo industrial até o nível das pessoas” — funcionários atuais e antigos de milhares de organizações, seus fornecedores, suas tecnologias, suas relações comerciais, tudo mapeado continuamente a partir de fontes públicas, em múltiplos idiomas.
No caso da Otan, por exemplo, a empresa atua em avaliação de risco, inteligência estratégica e capacidades de segurança econômica, disse um porta-voz da aliança. A Otan não revelou o tamanho do contrato com a Strider.
A atuação da Strider em áreas tão sensíveis levanta questões sobre o que aconteceria em caso de uma violação significativa, uma aquisição hostil ou um processo judicial em uma jurisdição onde a empresa opere, mas cujo governo esteja entre aqueles que ela monitora.
“É uma forma muito poderosa de conduzir vigilância generalizada, e o que me preocupa especificamente é que o público em geral não faz ideia de quais dados são coletados sobre ele para esses fins, nem de como se defender disso”, disse Jennifer King, pesquisadora de privacidade de dados em Stanford, ao comentar o negócio de coleta de dados.
O CEO Greg Levesque afirmou que a equipe fundadora partiu do pressuposto de que o sucesso da plataforma atrairia riscos e estruturou a arquitetura da empresa em torno dessa premissa: redundância, criptografia e — crucialmente — um modelo de “zero toque”, que significa que a Strider não ingere nem armazena dados de clientes.
Os sistemas, metodologias e termos de uso da empresa, disse ele, foram desenhados para operar dentro de marcos legais estabelecidos e priorizar precisão, transparência e uso responsável de dados. “Nossa análise se baseia em informação verificável, de fontes abertas, e fornece sinais de risco — não conclusões automatizadas — para apoiar a tomada de decisão informada.”
A avaliação pós-Series C da empresa, concluída em setembro de 2024, foi de US$ 450 milhões. Desde essa rodada, Levesque disse que a companhia quase triplicou a receita e estuda novas captações. A Strider hoje opera em 16 países; o irmão gêmeo de Greg, Eric — que é presidente e cofundador — está baseado em Londres. Greg Levesque, que não revela nomes de clientes, mas afirma que a empresa atende oito das dez maiores companhias da Fortune 500, preferiu não comentar a avaliação específica.
A empresa tem concorrentes. Alguns, como Sayari, Datenna e Exiger, focam em risco de cadeia de suprimentos; outros, como Recorded Future e Lexis, miram o roubo de propriedade intelectual.
A Strider faz as duas coisas, além de inteligência estratégica — algo difícil de qualquer rival replicar, disse Blake Modersitzki, da Pelion Ventures, que liderou a Série C e integra o conselho da Strider.
Laura Galante, ex-alta funcionária de inteligência dos EUA com ampla experiência no acompanhamento de operações de informação patrocinadas por estados, disse que o mercado continuará a se expandir independentemente de quem o atenda. “Estamos vendo uma grande mudança, em que a competição geopolítica se desenrola nas redes do setor privado e contra ativos físicos corporativos”, afirmou. “A maioria das empresas entende essa exposição, mas ainda não tem formas concretas de gerenciá-la ou governá-la entre linhas de negócio, fornecedores e geografias.”
Em uma demonstração, Levesque rodou uma consulta ao vivo em todo o conjunto de dados da Strider: como semicondutores fabricados nos EUA estão chegando a programas de drones da Rússia e do Irã apesar das sanções pós-2022? O sistema funcionou por cerca de dois minutos, buscando em bancos de dados de compras militares em terceiros países e produzindo um mapa de aproximadamente 33 mil remessas, avaliadas em cerca de US$ 240 milhões. Ele identificou rotas de desvio de comércio pós-sanções passando por Shenzhen e Hong Kong e ranqueou os fornecedores de componentes por volume — com grandes fabricantes de chips aparecendo nos resultados. Custo computacional: menos de US$ 20.
Se a Strider identificou corretamente a dimensão da lacuna que está preenchendo — e se sua plataforma de fato a fecha ou apenas a estreita — é algo que será respondido com o tempo. Os casos de terras em Utah estão entre os exemplos mais claros de resultado mensurável. A alegação mais difícil, de que IA “agente” pode fornecer inteligência confiável e acionável em escala corporativa, ainda precisa ser testada em ambiente real.
Leah Siskind, que se dedica ao estudo do uso adversarial de inteligência artificial na Foundation for Defense of Democracies, afirma que a transparência em torno de sistemas de IA é fundamental. A Casa Branca anunciou, em julho do ano passado, a criação de um centro que, entre outras funções, deveria compartilhar informações e inteligência sobre ameaças.
“Não há prazo para isso acontecer, e já precisávamos disso ontem”, disse ela. No caso de empresas como a Strider, que estão implantando IA agente, “há um enorme potencial para trabalhos incríveis, mas também muito risco”.
Em Utah, Tanner Jensen aguarda que a assembleia legislativa estadual finalize as dotações orçamentárias para que seu departamento possa licenciar a Strider de forma contínua.
O autódromo foi vendido semanas atrás para uma empresa americana. A venda pendente de um terreno próximo ao aeroporto de Provo — rastreada, via sistema da Strider, até uma participação substancial do governo chinês — foi barrada antes da conclusão. Uma outra área agrícola de 30 mil acres já foi desinvestida.
A Mitime Utah Investment LLC é subsidiária do Geely Holding Group, com sede em Zhejiang, na China. E-mails enviados à companhia e pedidos de comentário a executivos da Mitime pelo LinkedIn não foram respondidos.
Para contatar a autora desta matéria:
Jamie Tarabay, em Washington, pelo e-mail jtarabay2@bloomberg.net
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