Irã diz que não vai negociar após EUA tomarem navio; entenda nova escalada de tensões

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Irã diz que não vai negociar após EUA tomarem navio; entenda nova escalada de tensões

O cessar-fogo entre EUA e Irã chega a esta segunda-feira (20) sob pressão máxima após um fim de semana de escalada que colocou em dúvida tanto a segunda rodada de negociações em Islamabade quanto a própria continuidade da trégua, que expira na quarta-feira (22). O Paquistão finalizou os preparativos de segurança e a delegação americana já está a caminho, mas o Irã disse não ter planos de participar das conversas.

O ponto de ruptura foi a apreensão, no domingo, do navio de carga iraniano M/V Touska pelo destróier USS Spruance no norte do Mar da Arábia. Após um impasse de seis horas em que a tripulação recusou ordens de parar, os EUA dispararam contra a sala de máquinas da embarcação e fuzileiros navais desceram por cordas de helicópteros para assumir o controle do navio.

Trump afirmou que o Touska estava sob sanções do Tesouro americano por atividades ilegais anteriores. O Irã chamou a ação de “pirataria armada” e disse estar pronto para confrontar as forças americanas, mas que foi contido pela presença de famílias de tripulantes a bordo.

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O fim de semana que antecedeu a crise

A escalada no mar veio sobre uma base já instável. No sábado, canhoneiras iranianas dispararam contra embarcações no Estreito de Ormuz, atingindo um navio francês e um cargueiro britânico, dois dias depois de o Irã haver declarado o estreito “completamente aberto”.

Trump reagiu na Truth Social ameaçando destruir “cada usina de energia e cada ponte no Irã” caso Teerã rejeitasse os termos americanos, retomando a retórica do período pré-cessar-fogo.

A China expressou preocupação com a “interceptação forçada” e pediu que as partes cumprissem o acordo de trégua.

A posição iraniana

Diante do quadro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, disse nesta segunda que Teerã não tinha planos de ir a Islamabade, acusando Washington de “não estar levando a sério” o processo diplomático e de insistir em “posições irracionais e irrealistas”.

A agência estatal IRNA classificou as declarações americanas sobre as negociações como “um jogo de mídia” para pressionar o Irã. O bloqueio naval americano aos portos iranianos, imposto na segunda-feira passada, dois dias após a primeira rodada de talks, é apontado por Teerã como o principal obstáculo ao avanço.

O presidente do parlamento iraniano, Ghalibaf, foi direto no sábado: “Há muitas lacunas e alguns pontos fundamentais permanecem. Ainda estamos longe da discussão final.”

O sinal privado por trás da postura pública

Apesar da postura pública, analistas e fontes próximas à mediação indicam que o Irã mantém um canal privado aberto. “Esse gap reflete uma estratégia de negociação de duas vias”, disse o analista Seyed Mojtaba Jalalzadeh à Al Jazeera.

“No nível público, o Irã mantém uma postura linha-dura para preservar legitimidade interna e aumentar sua alavancagem; no nível não público, ao despachar uma equipe a Islamabade, sinaliza que não abandonou a diplomacia.”

Fontes iranianas indicaram no domingo que uma delegação ainda poderia ser enviada na terça, possivelmente liderada por Ghalibaf e pelo chanceler Abbas Araghchi, os mesmos da primeira rodada.

Os preparativos em Islamabade

Do lado americano, Trump confirmou no domingo que a delegação seguiria para o Paquistão na noite de segunda, liderada pelo vice-presidente JD Vance, com o enviado especial Steve Witkoff e o genro Jared Kushner, o mesmo trio da primeira rodada. Há, porém, versões contraditórias sobre a presença de Vance: Trump chegou a dizer que ele não iria por razões de segurança, antes de a Casa Branca confirmar sua participação.

Dados de rastreamento de voo mostraram ao menos quatro aeronaves governamentais americanas pousando na base aérea de Nur Khan, em Rawalpindi, com equipamentos de comunicação e apoio logístico.

O que está em jogo nas negociações

O Paquistão está preparado para receber uma rodada que pode durar vários dias, diferente dos dois da primeira. Fontes próximas à mediação disseram à Al Jazeera que o objetivo imediato é assinar um memorando de entendimento que estenderia o cessar-fogo por até 60 dias, abrindo janela para as negociações mais complexas sobre o programa nuclear e o controle de Ormuz.

Os dois temas permanecem como os principais pontos de impasse desde a primeira rodada, que durou 21 horas sem acordo. “Os americanos trouxeram um cronômetro, enquanto os iranianos chegaram com um calendário”, resumiu um diplomata ouvido sob anonimato pela Al Jazeera.

Islamabade preparada, mas tensa

Em Islamabade, a Zona Vermelha foi bloqueada ao tráfego, o Serena Hotel, palco da primeira rodada, foi fechado ao público, e o Marriott e o Movenpick pararam de aceitar reservas. Cerca de 20 mil policiais, paramilitares e militares foram mobilizados na capital. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif falou por 45 minutos ao telefone com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian no domingo e reiterou o compromisso do Paquistão com a mediação. O general Asim Munir viajou a Teerã na semana passada com uma nova mensagem de Washington.

Os preços do petróleo subiam mais de 6% nesta manhã, com traders temendo o colapso do cessar-fogo. “Acontecerá. De um jeito ou de outro. Do jeito gentil ou do jeito difícil”, disse Trump à ABC News sobre a perspectiva de um acordo.

(com Reuters)

Última atualização: 20/04/2026 06:31

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