Jovens e endividados: falta de preparo aumenta dívidas entre jovens, mostra BC

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Jovens e endividados: falta de preparo aumenta dívidas entre jovens, mostra BC

Os jovens, especialmente os de menor renda, estão entre as principais vítimas do aumento da inadimplência dos últimos anos, mostra o Relatório Cidadania Financeira do Banco Central. Segundo o estudo, o número de jovens endividados dobrou em oito anos, de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024 e boa parte deles já está inadimplente. Segundo o estudo, a inadimplência do jovem é maior do que a dos adultos e idosos, independente da faixa de renda.

Em 2024, segundo o BC, entre os jovens com renda até dois salários-mínimos, 17,4% encontravam-se inadimplentes. Para aqueles com renda entre dois e cinco salários-mínimos, a taxa de inadimplência foi de 13,8%. Já entre os jovens de maior renda, esse percentual foi de 10% (ver gráfico abaixo).

As diferenças entre os produtos de crédito utilizados por jovens, adultos e idosos ajudam a entender esses dados, explica o BC. O número de jovens utilizando cartão de crédito e empréstimo pessoal mais que dobrou em oito anos e o cartão de crédito é a modalidade mais utilizada. Segundo o BC, os jovens apresentaram maior inadimplência em todas as modalidades analisadas em 2024, com destaque para os atrasos do crédito consignado dos jovens, de 5,7%, mais que o dobro dos adultos.

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Para o BC, uma hipótese é que os jovens apresentam menor controle sobre suas finanças em razão de estarem em fase inicial de exposição a produtos de crédito, aliada a características comportamentais mais típicas dessa faixa etária, como baixa propensão ao planejamento financeiro de longo prazo. Essa hipótese é reforçada com dados de letramento financeiro da pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que indica que os jovens possuem uma menor reserva de emergência, pensam menos em aposentadoria e possuem um comportamento possivelmente mais arriscado. Nesse ponto, o BC lembra que os jovens são os que mais investem percentualmente em criptoativos.

Geração sem preparo

Segundo o estudo do BC, o estudo de nível de letramento financeiro da OCDE coloca o Brasil em 12º lugar entre 14 países avaliados entre estudantes de 15 anos. “Ou seja: estamos mandando uma geração inteira para o mercado de crédito sem preparo”, afirma Luis Salvatore, presidente do Instituto Brasil Solidário, que trabalha com educação financeira para jovens há 26 anos. Ele destaca ainda que, nos estudos da OCDE, no geral, 87% dos brasileiros erraram a questão de cálculo de juros simples, 49% dizem que dívidas causam estresse em casa e 45% dizem que afetam a saúde.

Para Salvatore, o estudo do BC confirma algo que o IBS vê no campo há anos: o acesso ao sistema financeiro cresceu muito mais rápido do que a capacidade de uso consciente desses instrumentos.

Hoje, segundo o próprio relatório do BC, 96,4% da população adulta já tem conta bancária ou de pagamento, o brasileiro mantém em média 6,7 relacionamentos com instituições financeiras, e as fintechs já alcançam 123,7 milhões de clientes, com presença mais forte entre os mais jovens.

Ao mesmo tempo, o próprio relatório chama a atenção para a vida no digital, para a redução da “dor do pagamento” acompanhada pela maior dificuldade em poupar e para o risco de consumo impulsivo quando o dinheiro deixa de ser concreto e passa a ser cada vez mais abstrato. “Na prática, isso significa que o jovem entra cedo demais no sistema financeiro e tarde demais na educação financeira”, diz.

Segundo Salvatore, ainda na escola, o jovem já usa Pix, cartão, aplicativos e crédito, mas muitas vezes sem base para orçamento, adiamento de consumo, leitura de risco e percepção do custo real da dívida. “O problema, portanto, não é só falta de informação; é falta de formação para decisão”, afirma.

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Comprometimento futuro

Essa falta de formação vai afetar o futuro financeiro dos jovens de forma estrutural, avalia Salvatore. Quando o jovem se acostuma a consumir sem planejamento, ele tende a entrar na vida adulta com menor capacidade de poupança, maior vulnerabilidade ao crédito caro e dificuldade de construir resiliência financeira.

O relatório do BC deixa claro que a digitalização trouxe conveniência, mas também expôs cidadãos a vulnerabilidades ligadas ao superendividamento quando as ofertas não são compreendidas ou gerenciadas adequadamente, afirma Salvatore. Ele também reforça que crianças e jovens estão sendo expostos cada vez mais cedo a meios de pagamento abstratos, como moedas digitais, o que pode prejudicar a compreensão da finitude dos recursos.

Segundo Salvatores, do ponto de vista do IBS, isso tem um efeito acumulado: quem não aprende a decidir bem cedo tende a errar mais e pagar mais caro depois. E o erro financeiro e comportamental na vida adulta não aparece só no extrato; aparece na perda de autonomia, na ansiedade e imediatismo, na dificuldade de planejar estudo, trabalho, família e pensar o futuro.

Se a entrada no sistema financeiro acontece sem educação, o endividamento vira quase uma consequência previsível, afirma Salvatores. Para ele, as medidas do governo, para facilitar a tomada de crédito mais barato como forma de reduzir as dívidas, podem ajudar em casos específicos, mas não pode ser tratado como solução principal. Ele alerta que trocar dívida sem mudar comportamento pode apenas empurrar o problema para frente.

Salvatore cita a experiência do IBS com educação financeira em 27 mil escolas da rede pública e mais de 140 mil educadores cadastrados por todo o país. Segundo ele, a educação financeira só funciona quando sai do discurso e entra na rotina. “Nós aprendemos que o aluno não muda comportamento porque ouviu uma palestra; ele muda quando vivencia decisões, percebe consequências, experimenta escolhas e conecta o conteúdo à própria vida”, diz. “É por isso que trabalhamos com jogos físicos, planos de aula, formação de educadores e aplicação concreta em sala.” A leitura final, afirma Salvatore, é que não basta bancarizar, é preciso formar para decidir. “Sem isso, a inclusão financeira pode virar apenas inclusão no risco”, diz.

Educação com foco

As conclusões do Relatório de Cidadania do BC vão pelo mesmo caminho sugerido por Salvatore e avaliam que a queda observada no índice de conhecimento financeiro entre 2020 e 2023 é preocupante, considerando que o país está bastante abaixo da média mundial. Conforme os resultados do Pisa, sistema internacional de avaliação de ensino, o Brasil ainda enfrenta um grande desafio na melhoria da qualidade da educação como um todo, o que influencia os resultados de conhecimento financeiro da população.

O desempenho ruim dos brasileiros nas questões relacionadas à diversificação de riscos, com piora nos últimos anos, somado à piora na atitude de satisfação com consumo versus poupança, também acende um alerta, diz o BC.

Segundo o banco, para a melhora do letramento financeiro, que levaria a um aumento do bem-estar financeiro dos cidadãos, é necessário reforçar iniciativas focadas em grupos menos favorecidos, além de continuar com os esforços de medição dos níveis de educação financeira da população, inclusive por meio da participação do Brasil em novas edições da pesquisa da OCDE.

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