Mapa de Risco: voto é emoção — e governo tenta terceirizar desgaste

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Mapa de Risco: voto é emoção — e governo tenta terceirizar desgaste

A disputa eleitoral de 2026 começa a ser desenhada menos por programas de governo e mais pela forma como cada grupo político consegue explicar as frustrações do eleitor. No centro dessa dinâmica está uma variável menos tangível, mas decisiva, a emoção.

“O eleitor é antes de tudo uma criatura muito emotiva, essas emoções se derivam das frustrações ou das pequenas alegrias do dia a dia”, afirmou Creomar de Sousa, CEO da Dharma e professor da Fundação Dom Cabral, durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta sexta-feira (1º).

A leitura ajuda a explicar por que o debate político tende a migrar rapidamente para a construção de narrativas simples, que conectam o cotidiano do eleitor a responsáveis claros, ainda que essa relação não seja direta.

Segundo Creomar, o processo passa por uma tentativa constante de estabelecer causalidade entre o poder e a vida real. “Ele vai estabelecer uma relação de causalidade entre quem está no poder e a vida dele está sendo mais fácil ou mais difícil.”

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A disputa pela culpa

Esse mecanismo tem implicações diretas para a estratégia eleitoral. Tanto em 2018 quanto em 2022, candidatos que conseguiram direcionar o descontentamento do eleitor para um adversário específico saíram em vantagem.

“O desafio para Lula em 2026 é dizer que, se a vida não está boa, é porque os outros estão impedindo”, afirmou Creomar.

Na prática, isso significa tentar deslocar o foco das críticas para o Congresso e o Judiciário, especialmente em um momento em que o governo enfrenta dificuldades de articulação política e vê sua agenda travar no Legislativo.

A estratégia dialoga com movimentos recentes do próprio governo, que já ensaia uma retórica mais próxima do discurso antissistema, ainda que partindo de um presidente em terceiro mandato.

Narrativa como instrumento político

A tentativa de reposicionamento passa por um conceito recorrente na política brasileira, a terceirização da responsabilidade.

“O grande esforço é jogar a bomba no colo do Legislativo ou do Judiciário”, disse o professor.

Esse movimento ganha relevância em um cenário de desgaste, em que indicadores de aprovação ainda permanecem elevados, mesmo após sinais recentes de estabilização.

Ao mesmo tempo, o governo enfrenta um desafio adicional: o legado. Casos recentes que voltaram ao noticiário, como investigações envolvendo o Banco Master, reativam associações com episódios passados e dificultam a construção de uma narrativa limpa.

“O governo tem que dar respostas a essa memória e depende do Judiciário para isso”, afirmou Creomar.

Entre emoção e economia

Embora a disputa narrativa ganhe espaço, o governo ainda aposta que o fator decisivo para o eleitor médio será econômico. Medidas como ampliação de crédito, renegociação de dívidas e propostas de impacto direto na renda seguem no radar como forma de recuperar popularidade.

Se a percepção de melhora no cotidiano avançar, a necessidade de explicação política diminui. Caso contrário, a narrativa ganha protagonismo.

Nesse cenário, a eleição tende a ser definida pela capacidade de cada lado de transformar insatisfação difusa em direção política clara. Como resume Creomar, não se trata apenas de quem governa, mas de quem consegue convencer o eleitor de por que a realidade é como ela é.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.

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