Por que comprar um celular pode ser escolher um ecossistema tecnológico

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Por que comprar um celular pode ser escolher um ecossistema tecnológico

Comprar um celular representa uma decisão mais ampla do que parece: a entrada em um ecossistema tecnológico. Apple, Samsung e a dupla Lenovo-Motorola são os três conjuntos mais estruturados nesse modelo no Brasil, segundo o diretor de Pesquisa e Consultoria na IDC, Reinaldo Sakis.

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Sakis explica que o conceito de ecossistema, em que dispositivos da mesma fabricante se integram de forma nativa entre si, evoluiu nos últimos dez anos e passou a influenciar diretamente o comportamento de compra de uma parcela crescente de consumidores.

Como funciona na prática

O benefício central está na integração transparente entre dispositivos. Arquivos criados no celular são sincronizados automaticamente com o notebook, fotos ficam disponíveis em nuvem sem configuração manual, e documentos em edição no computador ficam acessíveis no smartphone sem etapas adicionais.

"É um benefício em produtividade e mais agilidade para integrar os conteúdos que você faz nos diversos dispositivos", afirmou Sakis ao Podcast Canaltech desta segunda-feira (4). A Apple é referência nesse modelo, mas Samsung e Lenovo-Motorola expandiram a estratégia nos últimos anos com soluções próprias.

No caso do grupo Lenovo-Motorola — que pertencem à mesma empresa desde 2014 —, a integração cobre notebooks e tablets Lenovo com celulares Motorola. "Muitos, talvez despercebidos, não saibam que a Motorola também pertence à Lenovo", observou o consultor.

A contrapartida é financeira. Manter todos os dispositivos dentro de um único ecossistema geralmente implica abrir mão do melhor custo-benefício disponível em cada categoria. "Às vezes, literalmente, o preço mais alto para ter isso", disse Sakis.

Fidelização e o que vem por aí

A Apple historicamente registrava taxas de fidelidade em torno de 80%, ou seja, cerca de oito em cada dez usuários da marca adquiriam o próximo dispositivo também dentro do ecossistema Apple. Outras fabricantes, segundo Sakis, trabalham para se aproximar desse patamar.

A expansão dos ecossistemas já alcança wearables, TVs e casa conectada. A Qualcomm, por exemplo, demonstra em eventos a integração entre celular, fone, relógio e carro dentro de uma mesma arquitetura. "Não vi nenhuma oferta nesse sentido até agora, mas a gente antevê que isso vai ocorrer daqui a pouco", avaliou Sakis.

No campo regulatório, a obrigatoriedade do USB-C na Europa, que forçou a Apple a adotar o padrão no iPhone, é citada pelo consultor como exemplo de como governos interferem em decisões de ecossistema. No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) acompanha o tema com foco em garantir um nível mínimo de compatibilidade entre marcas.

Para consumidores que não estão dentro de nenhum ecossistema, Sakis orienta avaliar o custo-benefício antes de qualquer compromisso com uma marca. "Busque o que é o melhor custo-benefício para você, aproveitando as brechas de compatibilidade entre marcas", disse.