Resgates em fundos de crédito privado aceleram nos primeiros dias de abril

Os fundos de crédito privado seguem perdendo dinheiro em abril. Dados da Anbima mostram resgate líquido de R$ 4,6 bilhões até 8 de abril na maior categoria da classe, que reúne fundos de renda fixa com liberdade para investir em papéis corporativos de diferentes prazos. O patrimônio desse grupo recuou de R$ 725,2 bilhões para R$ 721,8 bilhões no período.
O número, porém, pode subestimar o tamanho do movimento. Fundos de crédito costumam ter janelas de resgate de 30, 60 ou até 90 dias, muito maiores do que fundos de ações. Isso significa que pedidos feitos em março só aparecem nos dados de abril ou maio. “É muito provável que os resgates começaram a ser pedidos em março e só vão ser vistos melhor em abril, maio, até talvez depois”, diz Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial.
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Indústria de fundos hoje está menos exposta a crédito do que em 2023, o que reduz vendas forçadas, ajuda a conter a abertura de spreads e pode encurtar o atual ciclo de turbulência
A virada de março
Análise dos informes diários enviados à CVM pelos fundos confirma essa leitura. O levantamento, feito pelo InfoMoney com base nos dados abertos da autarquia, mostra que março começou com captação líquida positiva consistente. A virada veio de forma abrupta na terceira semana: o dia 20 de março, quando a Raízen (RAIZ4) entrou com pedido de recuperação extrajudicial, foi o primeiro dia negativo em duas semanas. Três dias depois, o GPA (PCAR3) fez o mesmo. A pressão acumulada explodiu em 27 de março, o pior dia da série.
Em abril, a dinâmica mudou estruturalmente: quatro dos sete primeiros dias úteis foram negativos, contra apenas cinco de vinte e dois em março.
A deterioração, porém, não começou em março. Siqueira lembra que os índices de crédito privado já exibiam piora desde o fim de 2024, com spreads corporativos abrindo à medida que os problemas de Braskem (BRKM5), CSN (CSNA3) e outros emissores ganhavam visibilidade, combinados com taxas dos títulos públicos em alta. “O desfecho foi em março, mas as notícias tinham começado antes”, diz ele.
Em março, os fundos de crédito privado entregaram uma fração do CDI pelo segundo mês seguido, o pior desempenho nominal da classe desde dezembro de 2024. No acumulado do primeiro trimestre, a rentabilidade ficou em 85% do CDI.
Mercado primário eleva pressão
A dinâmica do mercado primário ajudou a amplificar o movimento. Com volume elevado de emissões, os bancos que coordenam as ofertas ficaram com parcela relevante dos papéis em carteira e passaram a ofertá-los no mercado secundário com taxas mais atrativas, pressionando os preços dos títulos já em circulação.
O investidor que tinha fundos de crédito privado viu a cota cair por dois canais ao mesmo tempo: pela abertura dos spreads e pelo fluxo de saída que obriga os gestores a vender ativos para honrar os resgates.
O que fazer agora
O estresse abriu uma divisão entre as gestoras. Para a Sparta, que já havia reduzido a exposição a risco nos meses anteriores, o momento começa a oferecer pontos de entrada. “A abertura recente começa a criar pontos de entrada mais interessantes, melhorando a assimetria na margem”, escreveu a gestora em carta mensal, sinalizando alocações pontuais já realizadas. A ARX compartilha a leitura: “momentos como este oferecem boas oportunidades de alocação”, afirmou, ainda que mantendo postura cautelosa diante do cenário macro.
A SulAmérica Investimentos vê nos papéis incentivados (as debêntures de infraestrutura isentas de imposto de renda) uma das melhores opções do momento, mesmo com a volatilidade recente. A gestora projeta Selic terminal em 13% ao ano, o que, segundo ela, preserva a atratividade dos fundos de crédito que carregam esses ativos.
A Inter Asset está sendo mais seletiva. O CIO Marcelo Mattos aponta que o mercado brasileiro já ganhou maturidade suficiente para distinguir casos dentro de um mesmo setor, algo que ainda não ocorre, por exemplo, no crédito privado americano, onde choques tendem a derrubar papéis de uma indústria inteira de forma indiscriminada. “A gente fala: isso aqui é essa empresa, deste setor. E no mesmo setor, tem empresa que está indo bem e empresa que está indo mal”, disse ele em evento recente.
Siqueira divide a recomendação em dois perfis. “Para quem não participou, não vejo problema nenhum em alocar. É um momento melhor depois de um problema, a pessoa entende melhor o produto, pega preços melhores, spreads mais justos com a realidade das empresas”, comenta o head de research da Eleven. Já para quem está alocado, diz, vale a pena pensar em formas de reduzir, ter mais títulos soberanos e olhar outros produtos, como fundos imobiliários e até a própria renda variável.
Sem risco sistêmico, por ora
O consenso entre as gestoras é que não há risco de ruptura. A ARX ressalta que, por ora, não há sinais de que fundos precisem vender ativos a preço de liquidação para honrar resgates. A Sparta define o episódio como um ajuste de percepção, não um choque sistêmico.
Já Siqueira, da Eleven, aponta na mesma direção, mas faz uma ressalva relevante para o investidor: dado o prazo longo de resgate de muitos fundos de crédito, ainda não é possível saber com precisão quando e em que volume os pedidos das últimas semanas vão de fato se materializar nos dados. O pico da sangria, nesse cenário, pode ainda estar por vir.
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