Se comemorou cedo demais? Operadores se preparam para mais turbulências nos mercados

Operadores do mercado financeiro se preparam para uma abertura de semana instável, diante da continuidade do impasse no Estreito de Ormuz, que volta a elevar a incerteza que Wall Street vinha tentando deixar para trás após uma semana que levou o índice S&P 500 a um recorde e impulsionou o petróleo de volta à faixa de US$ 90 por barril.
O Irã alertou ao longo do fim de semana que embarcações que se aproximarem da via marítima “sob qualquer pretexto” serão tratadas como violação do cessar-fogo. A Guarda Revolucionária abriu fogo contra navios comerciais, deixando operadores de petroleiros à espera de definições de Teerã.
As ações endureceram um impasse que parecia aliviar na sexta-feira (17), quando sinais de distensão sustentaram uma alta generalizada de ativos de risco. A agência semioficial Tasnim informou que o país não participará de uma segunda rodada de negociações com os Estados Unidos em Islamabad nesta semana enquanto o bloqueio naval americano permanecer em vigor, embora mensagens continuem sendo trocadas por intermediários.
O presidente Donald Trump, que na sexta-feira (17) indicou que um acordo estava praticamente fechado, elevou o tom até domingo (19), ao ameaçar destruir todas as usinas de energia e pontes do Irã caso as negociações fracassem. A mudança abrupta reforça o quanto a alta recente dos mercados foi sustentada mais por expectativa do que por uma resolução concreta.
O S&P 500 registrou a terceira semana consecutiva de ganhos superiores a 3% e caminha para o maior avanço mensal desde 2020. Na sexta-feira (17), o dólar chegou a devolver integralmente os ganhos acumulados desde o início do conflito. O petróleo Brent caiu, enquanto os títulos do Tesouro americano avançaram. A negociação de ações, Treasuries e petróleo nos Estados Unidos é retomada com mais intensidade às 18h de domingo (19), no horário de Nova York.
“Parece que os investidores podem ter comemorado cedo demais”, afirmou Martin Hennecke, chefe de consultoria de investimentos para Ásia e Oriente Médio da St. James’s Place. Segundo ele, os desdobramentos do fim de semana “podem levar à devolução de parte dos ganhos recentes no curto prazo”.
Nas primeiras negociações na Ásia nesta segunda-feira (20), o dólar indicava alta frente a pares relevantes, enquanto o dólar australiano liderava as perdas entre moedas mais sensíveis ao risco.
Os riscos inflacionários seguem elevados e não devem se dissipar com facilidade, mesmo que o frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã seja estendido além do prazo previsto para terça-feira (21). Empresas já vêm repassando custos mais altos aos consumidores, observou Hennecke, citando o índice preliminar de gerentes de compras (PMI) da S&P Global nos Estados Unidos. Esse movimento tende a corroer posições em caixa e renda fixa, ao mesmo tempo em que reforça o argumento por manutenção de investimentos em ações, mesmo em meio à volatilidade.
O Estreito de Ormuz permaneceu, na prática, fechado durante grande parte das sete semanas de conflito. O petróleo ainda se mantém significativamente acima dos níveis anteriores à guerra, e bancos centrais já foram forçados a rever planos de cortes de juros, um impacto que não deve ser revertido rapidamente, mesmo com eventual acordo.
“Embora o mercado acionário dos Estados Unidos tenha atingido um novo recorde, os riscos aumentam a cada revés nas negociações para reabrir o Estreito de Ormuz”, disse Matt Maley, estrategista-chefe da Miller Tabak + Co. “Estamos chegando a um ponto em que não são apenas os preços mais altos que geram pressão, mas também a escassez que começa a surgir.”
Apreensão de navio
O vice-presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner devem chegar a Islamabad na noite de segunda-feira (20) para negociações que, segundo o governo americano, seguirão os termos apresentados na semana passada. O bloqueio naval dos Estados Unidos permite a saída do Golfo Pérsico de navios com cargas não iranianas, mas impede embarcações que partiram de portos do Irã, distinção que Teerã utiliza para endurecer sua posição.
No domingo (19), Trump publicou na rede Truth Social que um navio da Marinha dos Estados Unidos interceptou uma embarcação de carga com bandeira iraniana, “abrindo um buraco na casa de máquinas”, e que fuzileiros navais assumiram o controle do navio.
“Nossa posição sempre foi a de que precisamos ver a retomada efetiva do tráfego pelo Estreito de Ormuz”, afirmou Sarah Hunt, estrategista-chefe da Alpine Woods Capital Investors. Segundo ela, enquanto isso não ocorrer, os mercados devem permanecer voláteis, embora a semana passada tenha indicado alguma aproximação de solução.
Hunt avaliou que investidores podem relevar o choque no setor de energia caso lucros corporativos e consumo se mantenham resilientes, especialmente nos Estados Unidos.
Impactos de longo prazo
O mercado de títulos nunca incorporou totalmente a expectativa de paz. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos subiram desde o início do conflito, à medida que investidores reduziram apostas em cortes de juros pelo Federal Reserve neste ano.
É no mercado de petróleo que a divergência entre preços e realidade física se mostra mais evidente. A queda registrada na sexta-feira (17) embutia uma normalização do cenário, mas rotas marítimas seguem afetadas, tarifas de transporte de petroleiros permanecem elevadas e os estoques foram reduzidos, condições que, segundo analistas, podem levar semanas para serem normalizadas. Antes da guerra, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo passavam pelo Estreito de Ormuz.
O indicador de risco entre mercados do Bank of America caminhava para a segunda maior queda mensal já registrada, atrás apenas da recuperação inicial após a pandemia. Gestores sistemáticos que estavam posicionados na venda de ações foram forçados a inverter posições e recomprar ativos. Parte desse movimento, segundo estrategistas, reflete o receio de ficar de fora de uma alta, comportamento reforçado no ano passado, quando investidores que apostaram contra as ameaças tarifárias de Trump sofreram perdas com a reversão do mercado.
Com os eventos do fim de semana evidenciando que o conflito segue em aberto, a recente onda de apetite por risco tende a enfrentar desafios, afirmou Elias Haddad, chefe global de estratégia de mercados da Brown Brothers Harriman. Ainda assim, ele disse que a instituição mantém a avaliação de que, embora o choque energético ainda não tenha se dissipado, o pior momento provavelmente já passou.
“A abordagem dos Estados Unidos de abrir a navegação para todos ou fechar para todos no Estreito de Ormuz tende a acelerar a reabertura dessa via estratégica, já que o impacto econômico compartilhado aumenta os incentivos para uma solução diplomática”, afirmou Haddad. “Nesse contexto, o fim de março provavelmente marcou o ponto mais baixo do sentimento de risco, e as expectativas para juros dos bancos centrais ainda podem retornar parcialmente aos níveis anteriores ao conflito.”
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